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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Encomenda - episódio II


- Vai uma cerveja?
- Não, obrigado, estou com um pouco de pressa.
- Sem problema. Também tenho um compromisso. Foi um prazer te conhecer. Na próxima quarta-feira estarei no Look Bar, vou me encontrar com a M às dezenove horas. Aparece lá.
- O prazer foi meu. Tenho uma atividade na quarta-feira, se der tempo eu apareço para uma cerveja.
- Te espero lá então.
Despedimos-nos e cada um foi para um lado. Segui em direção à praça da igreja matriz. A rua estava congestionada devido ao incidente na esquina da lancheria. Resolvi voltar para o hotel, seria mais seguro do que ficar perambulando pelo centro da cidade.
Não pensei duas vezes quando fechei a porta do quarto. Coloquei a encomenda no fundo da mala, joguei todos meus pertences dentro e fui à recepção encerrar minha estadia.

- Quanto? Perguntei ao gerente.
- São quatro diárias. Isso dá duzentos e quarenta reais, senhor Richard.
- Nossa! Tudo isso? Falei em tom de brincadeira, piscando para o gerente.
- Sim senhor, tudo isso.
- Toma trezentos. Não preciso troco. Fica como gorjeta pelo bom serviço prestado.
- Obrigado senhor. Volte sempre e tenha uma boa viagem de retorno. Só vou dar baixa no computador e lhe entrego as chaves do carro.
- Voltarei, certamente.
O gerente começou a olhar com cara de insatisfação para o computador, parecia brigar com a máquina. Repentinamente, esmurrou o monitor.
- Droga, esse computador sempre me apronta dessas na frente dos clientes. Um minuto só, por favor.
- O que houve?
- Trancou. Acho que é vírus. Vou ligar pra o técnico.
- Que nada, deixe-me ver. Sou expert em informática.
- Ora, imagina. Não posso fazer isso com o senhor.
- Meu amigo, a hospitalidade com a qual fui recebido aqui merece algo em troca. Não me custa nada retribuir. Enquanto eu faço isso, já que não estou com tanta pressa, você poderia abastecer meu carro?
- Fico meio constrangido, mas já que o senhor está pedindo, não custa nada uma troca de favores. Sinta-se à vontade.
- Só uma pergunta. Caso precise reinstalar tudo, há alguma coisa importante que deva salvar?
- Não, só registro dos clientes, mas isso é apenas para controle meu.
- Ok.
Enquanto o gerente saía, tratei logo de desmontar o computador e trocar o disco rígido. Quando ele retornou estava tudo funcionando maravilhosamente bem.
- Conseguiu? Perguntou ele.
- Sim, a má notícia é que tive de formatar tudo. Mas agora está como novo. Realmente era um vírus pego em algum site pornô. O estrago foi irreversível. Só a formatação para resolver. Aproveitei para colocar um antivírus para que não aconteçam mais esses contratempos.
-Fico-lhe agradecido. Aqui está a chave do seu carro. O tanque está cheio, como o senhor pediu. Tenha uma boa viagem.
- Obrigado e até a próxima meu amigo.
Saí do hotel e embarquei no carro. Resolvi dar um passeio pelo interior do município. Precisava respirar um pouco daquele saudoso ar da campanha. Parei antes num posto de gasolina e abasteci-me de cervejas e cigarros. Em poucos minutos já estava rodando pelas estradas empoeiradas de terra vermelha, sentindo o vento minuano entrar pelas janelas abertas do carro. The Doors faziam o fundo musical enquanto eu admirava as plantações de trigo verdejando aquelas colinas, fazendo um balé ao sabor do vento, transformando tudo em um enorme e calmante tapete verde. Parei no topo de uma colina e sentei-me no teto do carro, bebericando, fumando e enchendo os olhos com aquela calmaria.
Estava precisando de alguns momentos assim, relaxantes. Minhas atividades e minha vida no grande centro por vezes me fazem esquecer, ou não me deixam lembrar, que ainda sou um ser humano, com sentimentos, medos, anseios. Sonhos? Não sei se ainda os tenho mais. Pesadelos, muitos pesadelos, todas as noites rondam meu sono. O som daquela pistola, o cano apontado para minha testa, o clarão e a sensação de estar caindo em um abismo. Presságio? Fragmentos de algo que estar por vir? Não sei. O que sei é que cada dia deve ser calculado. Cada passo, cada esquina, cada telefonema.
Perdi a noção de tempo. Quando dei por mim já era noite. Ao longe, as luzes da cidade me mandando mensagens em Morse.
Recolhi todas as latas de cerveja e guardei-as em uma sacola. Não era justo macular aqueles campos Elíseos com nossa porcaria moderna. Juntei as baganas de cigarro e depositei-as dentro de uma lata vazia. Liguei o motor e fui procurar outro hotel. Sintonizei o rádio em uma estação local para saber dos últimos acontecimentos sobre a morte do prefeito. O locutor, com a voz embargada, informava sobre o assassinato de tão nobre edil e que a polícia já tinha um retrato falado de um homem alto, branco, cabelos castanhos e compridos, barba longa e escura, puxando para ruivo, olhos escuros. Perfeito, pensei comigo.

Continua.....
Confira a primeira parte - A Encomenda - Encontro Marcado Com a Morte - Postagem de Maio.

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