Palácio do Javali, 24 de agosto de 1954.
O inverno rigoroso finalmente se rendia para um dia ensolarado. As pastagens ainda estavam secas, queimadas pelas geadas intensas que castigaram os pampas. O gado na pradaria aos poucos se recuperava, graças à silagem estocada nos enormes galpões da fazenda. Os pessegueiros já davam sinais de que em breve a primavera coloriria outra vez aquelas coxilhas com seu verde exuberante, pontilhado de pingos roxos das azedinhas. Algumas cotias já rondavam os jardins, um pouco tímidas. Ao longe, o quero-quero tentava despistar um chimango que rondava seu ninho.
Deitado em sua rede, sorvia um chimarrão na cuia uruguaia, sua preferida, enfeitada com um bocal de prata para acompanhar a bomba, encomenda que havia feito dois meses antes. Tinha o pensamento longe que, vez que outra, era quebrado pelo relinchar dos potros no alto da coxilha.
A situação no país estava lhe tirando o sono. Sabia em seu íntimo que havia uma conspiração contra si. “Coisa da elite café-com-leite, que não aceita a liberdade que dei ao povo, à nação, rompi grilhões, dei direitos nunca antes almejados pelo sofrido povo. Os militares. Há dedo dos militares nessa história. Já mataram o Alcântara. O Manoel está certo, vou precisar das forças do exército do sul. Se pensam que me entregarei aos comunas, estão enganados”.
Jarbas veio lhe trazer outra chaleira com água quente para que continuasse a apreciar seu “mate”, cevado com erva da própria fazenda.
- Deseja mais alguma coisa, senhor?
- Peça para o Antenor encilhar o Ruano. Avise também o Libório para dar uma espiada lá no Cantão. Desconfio que tenha algum comuna rondando por aí.
- Sim senhor. O Manfredo lhe mandou um telegrama reafirmando seu apoio. Ele está vindo para cá. O restante dos Ministros continua mantendo a sua renúncia.
- Eles não vão me derrubar, Jarbas. Estão enganados. Um taura não se entrega tão fácil numa peleia. Não podemos se entregar pros home de jeito nenhum.
- Com sua licença, senhor.
Eram nove da noite quando uma coruja piou no lado de fora. Fazia dois minutos que Laura se retirara do quarto do pai, deixando-o na companhia de Jarbas, que agora empunhava um colt 32, com cabo de madrepérola, na mão direita. O cano apontado para a cabeça de Dornelles.
- Chegou tua hora, Doteles.
- Mas o que significa isto, Jarbas?
- Ordens são ordens. Eu não tenho, por princípio, o costume de desobedecer.
- Quem te mandou?
- Não te interessa. Eles cansaram de suas loucuras. Ainda serão complacentes te deixando como herói. Se quiser, pode ler esta carta.
Doteles não acredita nas palavras diante de seus olhos: “...saio da vida para entrar na história".
Quando Laura, acordada pelo estampido, entrou no quarto do pai, quase desmaiou ao ver seu corpo em cima da cama e a mancha de sangue no peito. Os braços abertos em forma de cruz, na mão direita, um colt 32.
Anos mais tarde Manfredo foi eleito presidente da república. Para comemorar sua vitória, no dia 14 de março de 1985, foi com a família assistir a uma missa de ação de graças. Após a morte de Dornelles, Manfredo, que sempre estivera nos bastidores políticos, conseguiu colocar os militares no poder, mas três anos depois, devido ao fracasso do parlamentarismo, foi o maior ativista contra os militares.
O bispo colocou a hóstia na boca de Manfredo com as mãos trêmulas, o olhar agitado. À sua direita, ao lado de um dos pilares do salão, Jarbas, segurança pessoal de Manfredo, olhava atento para o bispo.
Quando Manfredo sentou-se, sentiu fortes dores. Jarbas de imediato o amparou e providencio no seu deslocamento para o hospital de base.
Na noite de 21 de abril, Jarbas, ao lado da cama de Manfredo, trocava suas últimas palavras:
- Chegou tua hora, Manfredo. Eles ainda lhe darão honrarias de mártir.
A injeção foi letal. Manfredo sequer teve tempo de dizer qualquer coisa.
Em 12 de outubro de 1992, Jarbas aguardava ao lado do helicóptero, a chegada de Guimalhães que veio caminhando a passos lentos, castigado pela idade e pelos anos de luta contra as forças do sistema.
- Está tudo pronto, senhor.
- Obrigado Jarbas. Tem certeza de que é seguro? Não confio em coisas que voam.
- Absoluta certeza senhor. Helicópteros são as aeronaves mais seguras e hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida, certamente protegerá o “Senhor Diretas” de qualquer eventualidade.
- Jarbas, meu bom e velho Jarbas. Quem não se interessa pela política, não se interessa pela vida.
Trinta minutos após decolar, o helicóptero some dos radares. O corpo de Guimalhães jamais foi encontrado.
Em 21 de julho de 2004 Jarbas, de dentro da CTI do Hospital São Lucas, liga direto para o presidente Ingrácio:
- Morre o homem, fica o exemplo, permanece o pensamento. Foram suas últimas palavras, senhor presidente. Sim senhor, foi infarto, fulminante.
Jarbas deixa o quarto acompanhado de Vitor, que já o vinha acompanhando por cinco anos. Estava na hora de Jarbas se aposentar e ser substituído. Como comemoração ao seu último serviço, Jarbas convida Vitor para um último passeio...

Putzgrila!Essa narrativa me fez lembrar um dos maiores contistas do país,o Rubem Fonseca e o incrível Agosto.Essa trama mereceria continuação,sem dúvida.
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