Devo admitir que este trabalho foi o mais belo que realizei, e o mais arriscado também, em plena luz do dia e no centro da cidade. Nessa profissão o erro é uma sombra que nos acompanha diuturnamente. Muitos já caíram por não calcular todos os riscos em seus nano detalhes. Tudo precisa ser estudado e revisado tantas vezes forem necessárias. Por esse motivo fui escolhido. Sair sem deixar rastros é a parte mais importante no meu ramo. Não me importa quem está pagando ou qual é o motivo, pagando o meu preço, o serviço é garantido. Alguns serviços são rápidos, como um raio atingindo uma árvore no alto de uma colina, quando se vê, ela já está partida ao meio. Outros são mais demorados, requerem cuidados especiais, desde disfarces, digitais, sotaques, avaliação do terreno, das pessoas, pesquisas, cálculos, e o mais importante, álibi.
Não é do dia para a noite que se constrói um álibi, é preciso entrar em todos os ramos possíveis, investimentos, negócios, transportes, turismo, literatura. Cada serviço exige o uso de um desses, e outros álibis, como o que uso agora.
Por vezes o próprio destino dá uma força, involuntariamente, o que não significa fácil, muito pelo contrário, aqueles que pensarem que tudo é resolvido de maneira simples, no meu ramo estão fadados à morte ou à cadeia.
Após uma boa chuveirada, servi uma dose uísque e conectei o cabo ao notebook, hotéis de luxo nos dão praticamente tudo, desde que você use terno e gravata e tenha uma maleta preta tipo executivo. Acessei o mensageiro, M e F estavam online:
F fala com R: e ae meu, trouxe?
M fala com R: oiie
R fala com F: td? Trouxe.
R fala com M: oi, td certo para amanhã?
F fala com R: ok, marca o dia para me entregar e me avisa.
R fala com F: sábado ao meio dia.
M fala com R: td ok. Ñ esqueceu minha encomenda?
R fala com M: está comigo. Levarei amanhã.
Saí do mensageiro e rodei, com sempre, o programa para eliminar rastros. Quando se usa a internet todo o cuidado é pouco. Aproveitei para deixar um vírus na rede do hotel que por sua vez, infestaria também o provedor. Nada complicado, mas o suficiente para apagar todos os registros das últimas vinte e quatro horas. Dormi como um anjo.
Acordei relativamente cedo, queria aproveitar para tirar umas fotos da igreja matriz, uma obra arquitetônica imponente, bela por si só. Passei a vida toda acreditando que tinha sido erguida pelos índios Guaranis, minha decepção foi saber que foi reconstruída em 1970. O lado positivo nisso foi a não utilização de mão de obra escrava, como fizeram ao longo de séculos, subjugando culturas e povos.
A praça em frente estava repleta de estudantes ensaiando para o evento no final de semana, que contaria com a presença do governador do estado. Aproveitei para captar todos os ângulos, tanto da igreja como da praça e arredores.
Ao meio dia, comi um gorduroso xis-bacon, na lancheria que ficava na esquina, ao lado da lojinha de artesanato e produtos típicos das missões. Se o tempo me permitisse, visitaria as ruínas de São Miguel, estas sim erguidas com o sangue dos Guaranis, com a desculpa esfarrapada de catequiza-los, como se sua cultura fosse uma aberração, como se seus deuses de nada serviam, como se seus costumes não servissem de exemplo de convivência em sociedade. O que ganhamos em troca do massacre de culturas foi um mundo violento, cretino, hipócrita. Se ao menos os tivessem escutado e aprendido com eles.
Quando dei por mim já eram três da tarde, peguei o carro e fui dar um passeio pelo interior, queria recordar um pouco da infância e fui visitar a Barca dos Grabriel, no rio Ijuí, onde tomava banho nas tardes quentes e sufocantes de verão. Retornei quando o sol já se punha no horizonte, feito uma bola avermelhada.
Às dezenove horas em ponto eu entrei no Look Bar, um boteco estilo pub inglês, com uma decoração muito interessante, havia até um Cart pendurado numa das paredes. Sentei-me a uma mesa, de frente para a porta de entrada e pedi uma cerveja e dois copos. M chegou logo em seguida, sobretudo preto, boina oito gomos, echarpe no pescoço, inconfundível. Quando me viu abriu um vasto sorriso, sentou-se à mesa, olhou-me no fundo dos olhos e perguntou:
- Trouxe?
- Sim, aqui está. E o meu?
- Estão aqui, são dois.
- Hum! Interessante.
- O Z vem?
- Não confirmou. Disse que se desse tempo, viria.
- Então, quais são os planos?
- Para ser mais exato, pedir outra cerveja, pois o Z acabou de cegar.
Z juntou-se a nós. Tomou apenas um copo de cerveja e se retirou devido a compromissos. M e eu terminamos aquela cerveja e saímos à procura de outro bar. Não me recordo exatamente até que horas ficamos enchendo a cara. Voltei para o hotel e pedi para que me acordassem um pouco antes do meio dia.
Acordei e fui ao encontro de F, com um gosto horrível na garganta, como se estivesse com um cabo de guarda-chuva enferrujado entalado na goela. Antes que ele fizesse a pergunta mais óbvia, tratei de responder:
- Trouxe sim.
- Ótimo, seria um homem morto se não o trouxesse, e espero, para o seu próprio bem, que esteja autografado.
Recordamos alguns momentos do passado, enquanto saboreávamos um tradicional churrasco regado à cerveja. Trocamos algumas ideias sobre planos futuros e alguns projetos que poderíamos desenvolver. Às duas horas em ponto eu me despedi, apesar de sua insistência para que eu permanecesse por mais algumas horas. Disse-lhe que deveria pegar a estrada, pois não gostava de viajar à noite.
No caminho para o hotel, coloquei a peruca, desta vez loira, o bigode postiço e o cavanhaque. Ao chegar, pedi para encerrar minha conta.
Quando o governador subiu ao palanque para discursar, eu estava no outro lado da praça, de frente para a catedral e o palanque. A segurança foi reforçada, havia dois policiais em cada esquina, além da segurança do próprio governador. Coloquei a ponta do cano do rifle no vão entre o vidro e a porta do carro, com o auxílio de uma luneta, esperei o momento certo para puxar o gatilho. O fato de eu ser ambidestro me dá uma vantagem inimaginável, especialmente no manuseio de armas de fogo. O tiro atingiu o ombro direito do secretário de segurança do estado, que estava ao lado do governador no palanque. Como eu esperava, a correria foi imediata, o que me deu tempo de sair calmamente com o carro, dobrar na primeira esquina e desaparecer, feito fumaça que se dissipa no ar.
Mais um serviço bem sucedido, mais grana na conta. Agora era hora de voltar à rotina de patrulhar as ruas da minha cidade vestindo uma farda, dirigindo uma viatura velha e escrevendo contos policiais. Como disse, álibi é tudo nessa profissão.

Hahahahahaha!Que desfecho para uma viagem doidona à terrinha,hein Roberto.Conclusão:R e M são bons de copo.
ResponderExcluirhahahahahahahahahahahahahahahahaha
ResponderExcluirTu é ótimo!!!
Fábio... R e M são bons de copo e de risadas.
Beijo
Gostei. Até que foi um bom tiro.
ResponderExcluirUm abraço!
Maj Nascimento