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By Ferramentas Blog

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

2036 -Cap III - A Dama do Vale

Encontrei a Dama do Vale, nome conhecido da erva rara, às margens de um riacho, distante três dias de caminhada da aldeia. Com a ajuda de minha faca, removi a planta por inteira e coloquei-a em meu bornal. Após me abastecer daquela água gélida e cristalina, tomei rumo de volta para a aldeia. Resolvi escalar o Monte Tsuhi para cortar caminho, o que me pouparia um dia e meio de caminhada pelo caminho tradicional. Embora fosse perigoso escalar o Monte Tsuhi, o estado de saúde de Robinson não era dos melhores e quanto antes ele tomar o remédio, que provavelmente mamãe prepararia, melhor.
O início da escalada não foi difícil, meu vigor físico era o diferencial nessa hora. Tinha de me apressar para chegar ao cume antes do anoitecer. Segui pelo caminho do lado sul do monte, o que me parecia mais seguro. Passadas quatro horas desde que comecei a subida, deparei-me com um paredão escarpado. Parei alguns minutos para descansar e traçar a melhor rota para a escalada. Optei por subir entre algumas fendas que propiciavam um bom apoio. Quando a pedra que servia de apoio ao meu pé direito soltou-se, deslizei pela fenda até ficar entalado na sua base. A dor na minha perna esquerda foi insuportável.
Acordei com a água da chuva caindo em cascata em meu rosto e ribombavam trovões no horizonte. Tentei me mexer e a dor voltou lacerante. Cerrei os dentes e urrei, a todo pulmão. Quando olhei para minha perna esquerda, o clarão de um raio me mostrou o corte e uma lasca de pedra enterrada na minha carne.
Por instantes a agonia tomou conta de mim, não queria morrer ali. Pensei em minha mãe, em Robinson que precisava da minha ajuda naquele momento tão difícil da sua vida. Juntei forças e arranquei aquela lasca de pedra, por pouco não desmaiei novamente. Peguei minha faca e cortei minha calça em tiras. Com elas fiz uma bandagem provisória em cima do ferimento, apertando firmemente o nó. Não me daria por vencido, aquela era uma prova de sobrevivência para mim. Morrer jovem não estava nos meus planos.
Comecei a analisar aquela fenda. Pelos meus cálculos, eu caí de uma altura de uns cinco ou seis metros, minhas costas ardiam com os pingos da chuva. Creio que bati de um lado a outro daquela fenda enquanto caía e isto amorteceu minha queda. Por sorte não quebrei nenhum osso. Então comecei a subida novamente, apesar da dor. Até onde foi possível, usava as paredes da fenda como apoio para as costas e para os pés. A escuridão e a água que caía em meus olhos dificultaram muito a minha escalada. Aproveitava cada relâmpago faiscante no céu para localizar algum ponto de apoio par ir tateando no escuro.
Quando cheguei ao cume, fiquei deitado um longo período, recuperando o fôlego e esperando as dores diminuírem.
Perdi completamente a noção de tempo. Acabei adormecendo e só acordei quando senti algo cheio de patas caminhando em minha face. Apavorado e, num movimento instintivo, levei minha mão à face com tanta força que acabei por esmagar aquilo que caminhava sobre mim, no mesmo instante em que senti uma ferroada dolorosa na palma da mão esquerda.
Não sei se foi o pavor ou reflexo, mas em segundos eu estava em pé, com a perna direita doendo e a mão esquerda latejando. A chuva havia cessado e a lua cheia me fazia companhia. Olhei para o chão no intuito de descobrir que animal me ferroou e vi, ao lado de uma pedra, o que restou de um escorpião. Meu coração acelerou, minha mão começou a inchar imediatamente. Não pensei duas vezes, com o auxílio da minha faca, fiz um corte na mão e comecei a sugar e cuspir meu sangue, na tentativa de diminuir a quantidade de veneno injetado.
Nunca havia sido picado por um escorpião, mas sabia muito bem o efeito de seu veneno no organismo humano. No meu caso, não se sabia ao certo qual reação teria, mas não iria esperar sentado. Com mais um pedaço da minha calça, fiz uma atadura na mão.
O horizonte já dava sinais de que o dia amanheceria em breve na direção do vale que apanhei a Dama do Vale. Sem perder tempo, comecei a caminhar deixando a luminosidade vespertina para trás. O caminho à frente ainda estava em completa escuridão, banhado apenas pela luz do luar que formava sombras grotescas entre as montanhas. Quando levantei o olhar para orientar-me, minha retina refletiu uma enorme labareda vinda da direção da aldeia.

2 comentários:

  1. Uma saborosa e mochileira aventura que dá vontade do leitor participar.

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  2. Aliás continuando, esta grande história tem algo que me atrai.A mescla entre os elementos futuristas e antigos,um contraponto, como que mostrando que o futuro não se faz sem um passado.Fantastico!

    Fábio

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