- A menina ficou braba?
- Limbo é o meu cacete, que é o que você vai lamber se não parar de me enrolar. Vai me dizer que morri e parei no inferno?
- E por acaso isso tem cara de paraíso? Esperava o quê? Os Rolling Stones cantando Sympathy For The Devil? É cedo para eles virem. Mas se esse é o problema, eu canto para você: “Pleased to meet you, Hope you guess my name”.
- Engraçadinho. Porque não canta “Telma eu não sou gay”? Combina mais com tua latinha.
- Já vi que você não vai se convencer tão fácil.
- Engano seu. Já me convenci de que você é uma bicha, que tua mãe é uma vadia e que essa porra toda é um sonho idiota.
- Você tem razão. Isso é um sonho.
- Eu sabia. E você é uma bicha. Uma bicha vagabunda e viciada.
- To morrendo de medo. Olha só como estou tremendo.
- Olha aqui seu puto. Teu tempo acabou. Tá na hora de conhecer o caminho da redenção.
- Acho que não.
Quando levantei a mão para desferir um de meus tapas, senti uma dor intensa no peito. Acordei no meio de uma estrada poeirenta. Estampidos ecoavam misturados ao som de sirenes. Aos poucos minha visão foi me mostrando flashes as rodas da viatura, os pés de meu colega. Senti um calor insuportável. O suor escorria em minha face. Fabio Snake gritava algo que não conseguia decifrar. A dor no peito foi diminuindo e a consciência retornando.
- Que merda é essa cara?
- Tu tá vivo?
- Não. To comendo tua mãe.
Fabio Snake continuava descarregando sua pistola. Me dei conta finalmente do que estava acontecendo. Do patrulhamento no interior, do veículo fugindo, da troca de tiros, do pedido de reforço, do vagabundo apontando uma pistola e atirando, do dia virando noite, da dor no peito, da conversa com o diabo. Levei a mão ao peito e senti o projétil alojado no colete. Meu sangue ferveu instantaneamente. Levantei-me e peguei a calibre doze. Saí da proteção da viatura e abri fogo, com raiva, com ódio, com sangue nos olhos.
O primeiro tiro atingiu o peito do vagabundo. O segundo cuspe pegou em cheio na mão do outro vagabundo. O próximo disparo esparramou os miolos do terceiro vagabundo no vidro lateral do carro.
Quando ia disparar o quarto tiro, o último vagabundo levantou as mãos e gritou:
- Perdi! Perdi! Não me mata! Perdi.
Saiu de trás do carro com as mãos levantadas em sinal de rendição e se ajoelhou à minha frente. Meus ouvidos zuniam. O vento quente trazia um cheiro estranho. Minha visão escurecia enquanto pontos brilhantes pipocavam em minha retina a cada batida do meu coração.
- Não me mata! Pelo amor de Deus, não me mata! Perdi mano! Perdi.
O cano da Rebeca ainda expelia fumaça quando Fabio Snake gritou ao meu lado:
- Deita! Deita vagabundo! Deita!
Só então me dei conta do cenário. Minhas têmporas latejavam. Minha boca estava seca. A visão ainda meio turva. O cheiro de pólvora, sangue e poeira invadindo minhas narinas. Olhei para o parceiro que já estava com a sola do coturno no pescoço do vago e com as algemas fazendo o barulho característico. Olhei ao redor. Não havia ninguém, não havia reforço, não havia morador, não havia sequer um grilo para quebrar aquele silêncio que tomou conta o estradão. Ascendi um cigarro e dei uma longa tragada. Fiquei lembrando minha trajetória na polícia. Os dias e noites de plantão. As correrias, os vagabundos despencando com o peso da minha mão.
Chamam-me de Conde, Vlad ou Vamp. Não suporto vagabundo e o pessoal dos Direitos Humanos. Humanos direitos têm direito. Vagabundo não é humano, é vagabundo. Lembrei-me de uma velha promessa. O dia que um vagabundo atirar contra mim, iria até o inferno para matá-lo. Vagabundo que atira em polícia atira contra a sociedade toda, é irrecuperável, é escória que precisa ser erradicada da sociedade.
- Solta ele. Gritei para Fabio.
- O quê?
- Solta ele.
- Para quê? Temos que...
- Cala a boca e solta logo. Porra!
Rebeca deu sua última tragada.

É isso ai !!! Mas tudo tem um preço! Você não é obrigado plantar, mas é obrigado a colher o que você plantou!
ResponderExcluirO estilo cru e direto,sem rodeios,mas sem que isso diminua o poder narrativo.Como sempre,excelente!
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