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By Ferramentas Blog

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Vinte e dois


Ela dormia o sono dos inocentes. A mão dele, como sempre, repousava em sua nádega nua. Por vezes dava uns apertões para sentir a textura do músculo, seu objeto de desejo, que ela, desde que se conheceram, negava, fazendo com que ele a desejasse cada vez mais. Mas ela sempre negava.
Como sempre, ele levanta-se da cama, veste uma roupa e sai pelas ruas escuras, sentindo ainda em suas mãos o calor e a textura daquela pele. Vagava por horas sem se preocupar se ela iria acordar e
sentir sua falta. Nunca sentia. Tinha sono pesado.
Custava tanto assim ela ceder? Ele sabia que doía, mas nada que matasse. Afinal, tanto tempo dedicando-se inteiramente a ela. Ele não queria todo dia. De vez em quando já seria suficiente para saciar seu desejo. E ela, por crueldade até, negava. Mais do que isso, fazia questão de dormir de bruços. Ele tinha certeza que era para torturá-lo.
Ele ascendeu um cigarro e desceu a avenida deserta, escura, quente. Vez em quando um carro passava em alta velocidade. Ele aguardava o som da batida do metal no concreto. Nunca presenciou, mas torcia para que um dia pudesse ver o sangue misturado com ferros retorcidos e concreto sujando os cortes. Se tivesse sorte, uma massa encefálica espumante no esfalto.
Avistou um corpo vindo em sua direção. Passo apressado, rebolado inconfundível. Uma fêmea. Seu coração disparou. Sentiu o calor invadir sua façe. Sua respiração acelerou. Jogou a bagana do cigarro fora e camuflou-se nas sombras. Esperou.
O toc toc dos saltos estava cada vez mais próximos. Botas, ele adorava botas. Deixavam as fêmeas mais sexis, mais atraentes. Acompanhadas de um jeans e uma regata, transformavam qualquer fêmea em uma deusa. A semi ereção foi inevitável ao ver o balanço dos cabelos negros, lisos, para um lado e para o outro, acompanhando o bailar dos quadris ao som do toc toc.
Ele sentiu o suor molhar a palma de sua mão, a boca seca, as pupilas dilatadas, a visão de túnel, de macho caçador espreitando a presa. O corpo retesado esperando o momento certo para o bote, um felino articulando vagarosamente cada membro para o bote final.
Lembrou das nádegas nuas em sua cama. A negação, o sono profundo. Já não importava. Era apenas um filme cheio de chuviscos e interferência na imagem, distorcida. O que estava à poucos metros dele era mais claro. Sentiu o perfume invadindo suas narinas, já dilatadas, captando cada partícula suspensa no ar e trazida pela brisa morna. Olhou rapidamente à volta. Ninguém, nada além dele e a presa. O intestino contorceu-se. A perna de apoio tremia. A boca semi aberta, seca. Respiração rápida. O coração parecendo uma locomotiva. A endorfina invadindo cada vaso capilar. Mais três passos, seus desejos, suas ânsias. Dois passos.
O barulho da freada foi inesperado. Em segundos veio o estrondo. O som de metal contra o concreto. O pipocar dos fios de alta tensão. A escuridão. O cheiro de borracha tomando conta do ar. O silêncio. No meio da escuridão, gemidos de dor quebraram o silêncio.
Ele se aproximou, sorrateiro, da massa de lata retorcida contra o poste. Viu o condutor preso às ferragens, sem vida. A poucos metros dali, estirada sobre o asfalto, o corpo de uma jovem, de bruços, a minissaia deixando à mostra suas nádegas. Mais à frente, avistou sua presa caída, com o corpo retorcido feito papel amassado, inerte, sem vida. Analizou por breves instantes o cenário macabro e se aproximou do corpo da jovem que dava sinais de ainda respirar. Olhou para todos os lados, ninguém à vista.
Vinte minutos depois ele detava novamente em sua cama. Novamente repousava sua mão sobre aquela pele macia, pressionando para sentir a textura. Aproximou sua face daquelas nádegas, abriu a boca, como quem está prestes a morder uma maçã, e sorriu satisfeito. Não sentia mais aquela angústia, aquele desejo reprimido. Ela que dormisse tranquilamente e pelo resto da vida. Não precisaria mais dela para satisfazer seu desejo, sua tara. Havia, finalmente, encontrado uma maneira  de saciar-se, de matar seu desejo, de sentir entre seus vinte e dois dentes, a maciez de uma nádega.
Recostou a cabeça no travesseiro enquanto sua mão repousava no corpo nu de sua amada e dormiu.

2 comentários:

  1. Este eu havia lido anteriormente no falecido. Li de novo e continuo achando do caralho. Me identifiquei com o protagonista, rs.

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  2. Gostei. Não sei se pela ótima escrita, ou pelo pavor provocado, ou pela sensualidade... Só sei que gostei muito. Prazer!!

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